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Outono e Dionísio

Tempos de transição, tempo de queda gradual das temperaturas quentes do verão para o frio do inverno. Tempo de paisagens marcantes nos países de clima temperado nos quais as árvores amarelam e avermelham suas folhas em uma estratégia para evitar a perda de líquidos nas raízes, caules e troncos. Esse efeito de preservação das forças, daquilo que não pode morrer torna a paisagem exuberante o que inspira obras das mais variadas artes em virtude de suas cores, de sua aura, de sua magica transformação do espaço.

A troca das estações marca o ritmo da vida, nos lembra as fases do ciclo vida-morte-vida e suas etapas de nascimento, formação, amadurecimento, declínio e nova vida. Esse ciclo das estações, assim como, os ciclos da lua, interferem em todas as formas de vida do planeja, nas sociedades e civilizações passadas nos mostrando o eterno.

Na mitologia grega para cada uma das estações as são direcionadas forças arquetípicas de Deuses e Deusas. Para o outono, Dionísio deus do vinho e para o inverno Hefestos o deus das artes do fogo e dos metais.

Dionísio é descendente de Zeus e de Sêmele sua deusa-mãe mortal, era um deus jovem e tem sido associado ao entusiasmo e aos desejos amorosos, também seu nascimento é considerado duplo por ter sido retirado do ventre de sua mãe e acabado sua maturação na coxa do pai.

O duplo nascimento nos traz também a imagem da iniciação que sempre contém nascimento, morte, renascimento. Além disso, ter sido maturado na coxa de Zeus, seu pai e a maior divindade do Olimpo, nos traz a imagem da árvore oca e acentua ainda mais esses poderes iniciáticos de Dionísio e sua força excepcional.

Dionísio se casa com Ariadne, que era originariamente, uma deusa egeia da vegetação, notadamente das árvores. Inúmeros são os temas dionisíacos que representam a aliança do casal divino: a cena simboliza, muitas vezes, a união do deus e do iniciado aos seus mistérios.

Por isso também é associado como deus da vegetação, da vinha, das uvas, dos frutos, das renovações sazonais e é considerado Senhor das Árvores, dos jovens brotos, gênio da selva. Ele é quem distribui a alegria em profusão como diria o poeta grego Hesíodo.

Dionísio, assim como Afrodite é o senhor da fecundidade. Ele tinha em seus cultos, celebrações para a libertação, supressão das proibições e dos tabus, era o deus das catarses e da exuberância.

Por outro lado,  ele foi até o inferno para tirar sua mãe Sêmele de lá e assim também a colocou junto dos imortais. Sendo assim Dionísio também era considerado um libertador dos Infernos, iniciador e condutor de almas.

Suas jornadas até o inferno, simbolizam as trocas das estações do inverno para o verão e simultaneamente a morte e a ressurreição. Nessa parte do mito se estabelece uma estrutura que tem sido inúmeras vezes repetidas em todo o mundo em diversas religiões do ocidente influenciado pela cultura Greco-romana.

Antes do nascimento de Dionísio existiam dois mundos: o  divino e o humano,  a raça dos deuses e a raça dos homens. Ele simboliza a ruptura dessa divisão porque tende a transformar os homens em seres divinos. Ele representa a quebra das repressões, dos recalques para os aspectos psicológicos e o surgimento das forças obscuras que brotam do inconsciente, as forças que dissolvem a personalidade para termos a volta das formas caóticas e primordiais da vida, segundo as figuras nietzschianas.

Dionísio nos traz mais uma simbologia ambivalente: ele nos mostra que a libertação pode ser espiritualizante ou materializante, e com isso podemos evoluir ou regredir a personalidade. Mas acima de tudo simboliza a energia vital.

Sendo assim no outono temos diversas ferramentas e formas de inspiração para renascer nutridos com boas energias, pensamentos positivos e elevados, buscando em nós o divino, o bem estar, as boas relações e os cuidados com o mundo.

Essa metamorfose das árvores acontece em nós. É no outono que deixamos ir aquilo que nos serve mais, nossas crenças, nossos hábitos, nossas roupas e objetivos para conservar aquilo que verdadeiramente faz sentido.

A palavra Outono tem origem no latim (em latim autumnus) e ela significa “amadurecer”. Isso também nos faz meditar sobre o que é precisamos amadurecer em nós, o que precisa ser fortalecido. Onde precisamos assumir nossa auto responsabilidade por nossa vida. Quais aspectos em nós devemos preservar? O que nos trará energia vital para seguir.